Sabemos que ESG é a sigla, em inglês, para Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança). Como o objetivo maior do ser humano e dos seres-empresas é a Felicidade (mesmo nos negócios, o lucro ainda não é o fim, mas o meio necessário para isto), defendo sempre que deveríamos buscar o ESG-H (happiness) ou ASG-F (felicidade). Entender os conceitos não é tão difícil, difícil pode ser implantar as suas práticas e muito mais difícil, fazer com que elas se tornem um valor real, se transformem em cultura e entrem no espírito de toda a empresa. 

Penso nisso quando observo duas companhias, igualmente importantes em seus setores e igualmente possuidoras de valores declaradamente elevados. Ambas são empresas do bem e se esforçam para fazer as coisas corretas. Financeiramente, uma vive momentos de prosperidade há anos e a outra, nem tanto, embora isto possa ser atribuído a vários fatores inerentes ao próprio tipo de negócio. Pode-se dizer que ambas possuem características de empresas familiares. Ambas anseiam tornar-se empresas ESG.

Uma delas ainda está na primeira geração e os seus fundadores participam da operação diariamente. Eles não se cansam de repetir as declarações de Missão, Valores e Propósito da empresa. Cada palavra dessas declarações foi minuciosamente discutida, de forma que cada uma é dotada de um significado real.  A máxima dita por eles aos colaboradores é: “se você tiver dúvidas em qualquer situação, leia a nossa missão e você terá a resposta”. Eles possuem diversos rituais que favorecem a criação da cultura que desejam criar e seguem com eles, de maneira consistente. Também possuem um conselho consultivo, composto por eles e por conselheiros externos que se sentem confortáveis em questionar e discordar de eventuais decisões dos diretores executivos. O conselho, mesmo de caráter consultivo, funciona e tem força para reverter uma decisão, em prol dos interesses da empresa.

A segunda empresa é muito forte em sua proposta de valor e nos produtos que entrega ao mercado, conseguindo se diferenciar de concorrentes muito maiores e poderosos. Apesar de já ter algumas décadas de existência, ela não investiu em rituais de gestão, direcionando os seus esforços para pesquisa e produção. Há declarações de Missão, de Valores e de Propósito, mas elas não são trabalhadas com a equipe. Ao implantar a governança, a empresa se depara com uma cultura centralizada no CEO, que ao assumir a presidência do conselho, tem dificuldades de conviver com discordâncias, inconscientemente lidando com os conselheiros, como se fossem executivos, numa relação hierárquica. O tema ESG, e o que está contido nele, é estranho à cultura da companhia.

As duas empresas ainda têm um longo caminho a percorrer até se tornarem empresas ESG maduras, que vão além dos discursos e das exigências formais da legislação ou do mercado. A diferença é que uma delas parece mais distante de entrar nessa trilha, pois a sua governança é desalinhada ao discurso e não contribui para a formação de uma cultura ESG.

Sem cultura, não existe ESG. Sem rituais e sem um processo legítimo de governança, a cultura ESG não será formada, tendendo a ser departamentalizada. Ou seja, o mundo real acontece e o tema é tratado em um departamento com ações específicas, emissão de relatórios e cumprimento de tabelas. Ainda é o estágio da maior parte das boas empresas que declaram ser ESG. Nem é preciso falar daquelas que simplesmente tentam capitalizar na comunicação e fazer o mínimo possível, como o conhecido Greenwashing (algo como “lavagem verde”, para parecer ser ambientalista, por exemplo).

Não é o caso destas duas empresas, que buscam ser coerentes entre discurso e prática. Mas ser coerente não é tão fácil assim. Nós mesmos, como pessoas, podemos ter dificuldades que, às vezes, são mais percebidas pelos outros do que por nós mesmos.

Para nós, seres humanos ou para os seres-empresas, penso que vale o mesmo caminho: autoconhecimento, saber o que se quer, humildade para ouvir o que os outros têm a dizer e força para se transformar.