Marcio e Andriele formam um casal maduro, que serve de inspiração para os que os conhecem. Márcio é sacerdote e Andriele, esteticista e aconselhadora de mulheres. Antonio é o filho, uma criança de sete ou oito anos. Como a maior parte das crianças nessa idade, Antonio é alegre, agitado e extremamente curioso, um exímio fazedor de perguntas. “Pai, por que você e a mamãe são brancos e eu sou preto?”, perguntou ele recentemente. Não sei bem qual foi a resposta que Márcio deu, mas a história mereceria ser contada. Não ainda para Antonio, mas talvez nós tenhamos algo a aprender algo com ela.

Márcio, durante a sua carreira, atendeu muitas mulheres que queriam abortar. Para todas ele falava: “não faz isso...”. A maior parte era de jovens, algumas adolescentes. Elas viviam momentos de fragilidade, de medo e até de desespero. Fazia diferença um acolhimento humano, de alguém que transmitia empatia e segurança. Passados os momentos críticos, a maioria mudava de ideia e seguia com a gestação, enfrentando a situação, de um jeito ou de outro. Quando se mantinham firmes na decisão do aborto, Márcio apelava: “Deixa nascer que eu assumo a criança”. 

Várias mulheres aceitaram a proposta, seguiram com a gravidez e depois mudaram de ideia. “Não dou o meu filho, de jeito nenhum”, era a frase mais comum, antes mesmo que o neném nascesse. Até então, isto ocorrera com todas.

Não foi o caso de Maria. “Pode vir buscar o seu filho, que acabou de nascer”, disse ela por mensagem. Você tem quatro horas para pegar o garoto, caso contrário vou dar para outra pessoa”. Estava em uma cidade do interior e lá, não era uma prática tão incomum.

Márcio estava em viagem pelo Brasil e Andriele, sempre parceira do marido, deslocou-se urgentemente da capital até o hospital do interior. Maria não quis ver a criança, nem a amamentar uma única vez. Andriele, assustada, agarrou a criança, cobriu-a como pôde e deu um jeito para que outra recente mãe desse o peito para o menino. Márcio retornou no mesmo dia para encontrá-los. Andriele voltou para casa com Antonio no colo. Ela chorava de emoção, como se tivesse recebido de Deus um presente inesperado.

Ela havia superado uma perda, para ela um luto, ocorrida há algum tempo. Uma prima também do interior, que já tinha dois ou três filhos, pediu para que ela assumisse como mãe, um bebê que engravidara por acidente. Tendo as primas o mesmo sobrenome, ela assumiria a criança como seu filho legítimo. Andriele acompanhou os nove meses, preparou o quarto para o neném, comprou roupinhas para a menina e vivenciou como se fosse sua a gravidez, realizando o sonho de ser mãe. Quando viu a filha ao nascer, a prima declarou a velha frase, “Não dou a minha filha, de jeito nenhum”. Isto causou uma grande dor no coração de Andriele.

O tempo passou e eis que a vida trouxe Antonio, uma criança feliz, que corre pela casa e que transformou a trajetória de Márcio e Andriele. Márcio já tivera filhos do primeiro casamento e hoje, já mais maduro, pode oferecer tempo a Antonio, coisa que antes não seria possível. Andriele, que já não pensava em ser mãe, depois de várias tentativas e da última decepção que sofrera, desfruta de cada momento, conciliando o trabalho com a criação do filho.

Antonio tem impressionantes reações e comportamentos semelhantes a pessoas da família de Márcio e de Andriele, com quem ele nem conviveu. Eles se questionam, já que acreditam em reencarnação: seria Antonio um antepassado, reingressando à sua verdadeira família? Seria Antonio apenas um presente que o Universo proporcionou a Márcio e a Andriele, como uma retribuição por tanto bem que já fizeram? Teria o menino uma missão especial que apenas se apresentará mais à frente? Ou, como preferem alguns, tudo teria sido uma mera coincidência, um acaso? Lembro-me mais uma vez da frase de Steve Jobs: “só percebemos as sincronicidades olhando para trás, para frente, é preciso ter fé e seguir o coração”.

Seja lá o que for, Antonio segue brincando e se satisfez, por enquanto, com a resposta do pai a pergunta: “Pai, por que você e mamãe são brancos e eu sou preto?”. Para nossa reflexão: o que podemos tirar de aprendizado desta história?